Mais de metade dos atropelamentos em Lisboa ocorre em vias de bairro e no Bairro Novo de Benfica, o risco é visível

As descidas da Rua Duarte Galvão e da Rua Padre Francisco Álvares continuam sem medidas eficazes de acalmia de tráfego. O problema insere-se na perigosidade da Estrada de Benfica, identificada em estudos como um eixo crítico de atropelamentos.

6 de fevereiro de 2026

As descidas da Rua Duarte Galvão e da Rua Padre Francisco Álvares, como se pode confirmar no mapa do Bairro Novo de Benfica, apresentam características que favorecem a aceleração automóvel num contexto residencial. O declive contínuo, aliado à ausência de elementos físicos de acalmia de tráfego, cria condições para velocidades incompatíveis com a função local destas ruas.

Este problema enquadra-se num padrão mais amplo identificado pelo estudo “Atropelamentos em Lisboa”, elaborado pelos Vizinhos em Lisboa com base em dados da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária e da PSP. Entre as conclusões mais relevantes, destaca-se o facto de mais de 50% dos atropelamentos ocorrerem em vias de bairro, precisamente onde deveriam existir condições reforçadas de acalmia de tráfego, e de cerca de 75% acontecerem a menos de 500 metros de escolas.

No mesmo estudo, a Estrada de Benfica surge identificada como um dos eixos com maior risco de atropelamento em Lisboa, tanto pelo número de ocorrências como pela concentração de cruzamentos críticos. Um dos cruzamentos com registo mais elevado de atropelamentos no período analisado localiza-se precisamente neste eixo, reforçando a sua centralidade no problema da segurança pedonal.

A Estrada de Benfica funciona como eixo estrutural do Bairro Novo de Benfica, acumulando funções de atravessamento, acesso local, comércio e ligação entre zonas da cidade. Esta sobreposição traduz-se numa infraestrutura que privilegia a fluidez automóvel, com impacto direto nas ruas adjacentes, que acabam por herdar velocidades e padrões de circulação desajustados ao seu carácter residencial.

Na Rua Duarte Galvão, a inclinação prolongada atua como fator de aceleração natural. A inexistência de lombas, passadeiras sobrelevadas, plataformas contínuas ou estreitamentos da faixa de rodagem faz com que o controlo da velocidade não resulte do desenho da via, mas dependa apenas da decisão individual de quem conduz. Na Rua Padre Francisco Álvares, o declive e a boa visibilidade longitudinal produzem um efeito semelhante, reforçando a leitura da rua como eixo fluido, apesar da sua integração num tecido habitacional consolidado.

As recomendações dos Vizinhos em Lisboa apontam para a necessidade de medidas físicas e estruturais, sublinhando que soluções baseadas apenas em sinalização ou pintura no pavimento têm eficácia limitada. Entre as propostas estão a implementação de passadeiras sobrelevadas, zonas 30 efetivas, estreitamentos de via, plataformas ao nível do passeio e reforço da fiscalização da velocidade, medidas com eficácia comprovada na redução da gravidade da sinistralidade.

O Bairro Novo de Benfica acompanha em grande parte estas recomendações, considerando que a segurança pedonal deve ser tratada como infraestrutura essencial e não como intervenção decorativa. Num bairro onde a Estrada de Benfica estrutura a vida quotidiana e onde muitas deslocações são feitas a pé, a ausência de uma estratégia coerente de acalmia de tráfego tem efeitos diretos na segurança de quem vive e circula no território.

Intervir nas descidas da Rua Duarte Galvão e da Rua Padre Francisco Álvares não é, por isso, uma ação isolada, mas parte de uma correção mais ampla necessária no eixo da Estrada de Benfica. Reduzir a velocidade automóvel de forma estrutural nestas ruas é um passo indispensável para alinhar o desenho urbano com a função real do bairro e com os dados já disponíveis sobre sinistralidade rodoviária em Lisboa.

Sobre a plataforma

A Plataforma de Moradores do Bairro Novo de Benfica nasce da vontade de reforçar a união entre moradores e de criar uma voz coletiva que represente o bairro junto da Câmara Municipal de Lisboa e da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica.

Pretendemos promover o diálogo, identificar problemas, valorizar o que já existe de bom e contribuir ativamente para a melhoria da qualidade de vida no nosso bairro.